domingo, 21 de abril de 2013

DRACONIAN

A Rose For The Apocalypse

23 de junho de 2011, via Napalm Records

Publicado em Rock n'Heavy









Temos de recuar ao dealbar de 2010 para conhecermos as raízes de “A ROSE FOR THE APOCALYPSE”, quando Anders Jacobsson escrevia no myspace da banda: "Draconian Anno 2010, a new productive era", o projecto era explícito: “estamos actualmente a trabalhar diligentemente para que DRACONIAN entre na segunda década do novo milénio com um “boost” (…) Fiquem atentos porque no próximo ano vamos regressar em força.” A banda prometeu e cumpriu, com o lançamento de “A Rose for The Apocalypse” a marcar invariavelmente este “Midsommar”. Lançado nas vésperas do principal feriado sueco, o novo trabalho de DRACONIAN apresenta-se como a banda sonora inverosímil para o dia mais longo e mais festivo do ano. Depois do aclamado “Turning Seasons Within” (inesquecível passagem pelo Festival Caos Emergente em Setembro de 2009) e de um longo interregno, os DRACONIAN regressam ao melhor nível com um álbum lançado em pleno Solstício, uma opus negra, anunciando as trevas que se avizinham, à medida que a luz declina nos céus escandinavos. 

Na verdade, DRACONIAN é uma banda que cativa, desde logo, pela dicotomia paradoxal entre os guturais tenebrosos e soturnos de Anders Jacobsson e a beleza diáfana, cristalina e emotiva da voz de Lisa Johansson. De facto, em “A Rose for The Apocalypse” a vocalista ganha protagonismo, introduzindo novas cambiantes líricas no som de DRACONIAN e conferindo maior diversidade à paleta melódica da banda. De notar que há também uma matriz dialéctica enunciada no título do álbum e consubstanciada na dicotomia beleza/horror.

Como se pode verificar através da consulta do sítio oficial da banda, Anders Jacobsson afastou a ideia de que este fosse um álbum conceptual, no entanto, o vocalista referiu que há um vínculo temático que radica na constatação desse “vasto dilema que enfrentamos enquanto espécie”, à medida que sacrificamos a natureza para alimentar as fornalhas do progresso. Assim sendo, não causa admiração que este seja um álbum mais fatalista e sombrio que o seu antecessor, ainda que seja evidente a preocupação em manter um diálogo constante entre o passado e o presente.

A faixa inicial do álbum, “The Drowning Age”, dá o mote perfeito para este poema apocalíptico. Anders continua brilhante ao nível da composição lírica e o refrão “Let’s bring our Gods, Let’s bring our Gods to the gallows.” é um grito de revolta existencial e instaurador de uma diatribe nietzchiana. As vagas de growls de Anders envolvem o registo límpido e suave de Lisa e a faixa deambula entre a flagelação Death e a suavidade do Gothic. “The Last Hour of Ancient Sunlight” (destaque para o vídeo já disponível) apresenta uma das linhas programática do album: ” In rapture from nature we divorce, like orphans by desire”, aqui é de realçar o lirismo e a expressividade do tema: “We took the blood of the earth and fell in love with death with life itself as an excuse”. Num registo mais Gothic/Doom, Lisa ganha mais protagonismo e os momentos de diálogo entre os vocalistas tornam-se memoráveis, com o peso das guitarras conferindo maior emotividade às palavras e a percussão a marcar as diferentes cadências presentes ao longo da música. Com “End of the Rope” o álbum acelera para um registo mais Death, com os growls de Anders a pontificarem sobre os riffs das guitarras. A voz de Lisa faz aparições fugazes e a faixa termina ao som de um piano fúnebre. «Elysian Night» é uma longa e sublime melopeia gótica repleta de filigranas líricas e musicais, guitarras límpidas, vocalizações feéricas e growls espectrais. “Deadlight” é um hino byroniano pautado pelo pessimismo e pela ânsia angustiada da morte. Em “Dead World Assembly” há que destacar a beleza simples, a musicalidade e a capacidade de composição da banda, Lisa canta num registo singelo e desafectado, pouco comum no género, e há ainda que realçar os excelentes apontamentos de Olof Göthlin no violino. “A Phantom Dissonance” inicia num registo acústico, acompanhando a voz da vocalista, para, em seguida, a electricidade pautar a prestação de Anders. “The Quiet Storm” começa com Lisa num registo “mainstream”, com produção à mistura e alguma dose de experimentalismo, trazendo novos elementos para o universo musical de DRACONIAN, ainda que mesclados na sonoridade típica da banda. “The Death of Hours” descarrega uma torrente melódica, com um brilhante trabalho ao nível da secção rítmica, onde o baixista Fredrik Johansson tem prestação musculada e omnipresente. 
O álbum encerra em alta rotação com a “bónus track”, “Wall of Sighs”, uma parede de guturais, guitarras lancinantes e aflitivas cordas clássicas despejadas em torrentes sucessivas. Com “A Rose for The Apocalypse”, os DRACONIAN atingem um patamar de maturidade e excelência que deve ser reconhecido, particularmente, quando nos movimentamos nos meandros de um género por vezes marcado pelo carácter imberbe dos seus intérpretes. 

O álbum demonstra que a alquimia matricial de DRACONIAN continua incólume e que existe alguma ductilidade ao nível da composição e da interpretação, facto que permite que a banda se reinvente a si própria sem nunca pôr em causa a sua identidade.

Texto de Rui Carneiro

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